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[3/8] Sexualidade

Este artigo é parte da série "Sexualidade, Opressão e Violência", dividida em 8 partes. Para ter acesso aos outros conteúdos, visite a publicação índice clicando aqui. O Projeto Vision é uma iniciativa conjunta de Lacking Faces e Anonymous FUEL.


Sexualidade (Sexo, Gênero e Orientação Sexual)


A sexualidade humana é a mais complexa que conhecemos. Enquanto campo de estudo, a Sexualidade não estuda apenas a biologia sexual, mas também as relações entre as pessoas e delas com o meio. Qualquer agrupamento de sexualidade é artificial. Nenhum indivíduo tem sexualidade igual à de outro, ou seja, toda sexualidade é única. No entanto, ao longo da história alguns "rótulos" foram sendo formados para se referir a determinados grupos, e mais recentemente esses grupos se apropriaram destes nomes para exigir igualdade de direitos. Muitos aspectos compõem a sexualidade de um indivíduo.

Sexo: Refere-se aos componentes biológicos da sexualidade, ou seja, o "sexo biológico". Na espécie humana, como nos demais mamíferos, temos dois sexos principais, chamados de "macho" e "fêmea",  definidos por cromossomos, hormônios, formação dos órgãos sexuais e desenvolvimento de características sexuais secundárias. A visão contemporânea da ciência, contudo, já contraria esse binarismo e apresenta diversas maneiras de "medir" ou analisar o sexo de um indivíduo. Como o sexo é definido por mais de um eixo de desenvolvimento e eles não são totalmente interdependentes, há muitas possíveis combinações que resultarão em indivíduos biologicamente diferentes, ainda que artificialmente agrupados como "macho" ou "fêmea". Existem  muitos tipos de intersexualidade, antes chamada de hermafroditismo, que se devem a fatores variados. A intersexualidade geralmente é uma divergência durante o desenvolvimento embrionário, mas é rara. O sexo  biológico influencia o desenvolvimento do corpo durante toda a vida, através de uma relação de processos complexos, que vão da formação das gônadas ainda no embrião, passando pelo desenvolvimento de caracteres  sexuais secundários na adolescência, e regulação hormonal até o fim da  vida.

Gênero: A identidade de gênero, até onde sabemos, é o resultado de predisposições biológicas e interações sociais. Ela é basicamente como a pessoa se identifica em relação aos gêneros presentes em sua sociedade. No nosso caso, os gêneros comuns são "homem" e "mulher". Em outras sociedades pode ser diferente. Há sociedades conhecidas com até 5 gêneros, que vão  levar em conta desde características físicas até hábitos e papéis sociais. O gênero é um constructo social. Isso significa que ser homem atualmente no Brasil não é a mesma coisa que ser homem na Grécia antiga.  Da mesma maneira que ser mulher no Brasil colonial não é o mesmo que ser mulher hoje no Oriente Médio. A expressão de gênero é a maneira como cada pessoa manifesta sua identidade de gênero socialmente, com seu comportamento, vestimentas e hábitos. Frequentemente, o sexo "macho" é  associado ao gênero "homem", enquanto o sexo "fêmea" é associado ao gênero "mulher". Mas nem sempre é assim. Algumas pessoas não se identificam com o gênero que a sociedade atribui a seu sexo. Essas pessoas são chamadas transgênero. Há  também pessoas que se colocam de maneira "intermediária" entre os  gêneros, e estas podem ser consideradas andróginas (misturam elementos masculinos e femininos). Por fim, também existem pessoas "não-binárias", ou seja, que não se identificam necessariamente com qualquer dos  gêneros em uma sociedade binária como a nossa. Ainda não há muitas conclusões científicas sobre como uma pessoa se identifica com determinado gênero, mas sabe-se que isso acontece muito cedo na formação da identidade de cada ser humano.

Genderqueer ou Não-Binarismo: O termo "genderqueer" ou "não-binário" engloba outras possibilidades de expressão de gênero que, embora alvo de algumas polêmicas, têm se tornado mais frequentes e reconhecidas em nossa sociedade. Independente de alinhamentos teóricos que possam afirmá-los ou negá-los, é importante conhecer e respeitar essas formas de expressão. Pela ótica queer, uma pessoa pode apresentar características de dois ou mais gêneros (bigênero, trigênero, pangênero/multigênero), parcialmente de um gênero (demigênero), nenhum gênero (agênero), gênero neutro (neutrois), transitar entre gêneros (gênero fluido) ou pertencer ainda a um outro gênero. Algumas leituras da nossa sociedade consideram as travestis um terceiro gênero, por exemplo. Há ideologias contrárias à aceitação do queer por entenderem que as questões de gênero estão mais ligadas à socialização do indivíduo pelo resto da sociedade, e não pela autoafirmação que ele faz de seu próprio gênero. Para essas pessoas "ser mulher" é diferente de "declarar-se mulher", por exemplo. Não há, contudo, um fim para essa discussão apresentado por nenhum campo científico. Todas estas questões estão em aberto e fazem parte da compreensão e transformação do mundo em que vivemos.

Orientação Sexual: De maneira simplificada, a orientação sexual diz por qual ou quais gêneros a pessoa é interessada afetivamente e sexualmente. Também não há muito consenso científico sobre como isso acontece para cada pessoa, nem se é o mesmo  processo para todas. O que se sabe é que, assim como gênero não é necessariamente definido pelo sexo biológico, a orientação sexual também não. Embora já existam dados apontando que existe influência biológica em algum nível, também há dados indicando que não é somente isso que determina esse "resultado". Ela também pode se alterar ao longo da vida.  Por convenção social e necessidades políticas, cria-se categorias artificiais de orientação sexual. Por exemplo, heterossexuais se atraem pelo gênero oposto, homossexuais pelo mesmo gênero, bissexuais pelos dois gêneros, pansexuais por quaisquer gêneros. Os chamados assexuais não apresentam esse interesse. Na prática, outros componentes somam-se à orientação sexual na composição de uma sexualidade única. Dois heterossexuais vão gostar de coisas diferentes, e talvez haja  tanta diferença entre eles que o gosto de um homem heterossexual pode ser mais parecido com o de uma mulher homossexual que com outro homem  heterossexual, por exemplo. As classificações por um lado estigmatizam pessoas em grupos, muitas vezes as condenando à discriminação de uma sociedade inteira. Por outro, têm ajudado grupos oprimidos a se afirmarem politicamente e lutarem pela conquista de direitos.

Observações: Há inúmeras possíveis denominações para a maneira como uma pessoa vive  sua sexualidade, mas é importante destacar que a orientação sexual refere-se única e diretamente ao gênero que desperta essa atração. Outros  componentes são apenas a individualidade de cada um, e não há nenhum indício de que tenham motivações biológicas. Classificações como  "demissexual", "sapiossexual" e muitas outras estão mais relacionadas a como cada um vivencia e socializa sua sexualidade, mas não são orientações sexuais.

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