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[7/8] Misoginia, Misandria e Falsa Simetria

Este artigo é parte da série "Sexualidade, Opressão e Violência", dividida em 8 partes. Para ter acesso aos outros conteúdos, visite a publicação índice clicando aqui. O Projeto Vision é uma iniciativa conjunta de Lacking Faces e Anonymous FUEL


Misoginia e Misandria


Misoginia: De um modo simplificado, misoginia é o ódio ou aversão a mulheres (o gênero feminino, assim como os comportamentos e aparência atribuídos socialmente a esse gênero). Em sociedades machistas como a nossa, a misoginia é um aspecto central da cultura sexista (ou seja, a cultura que privilegia grupos enquanto oprime outros, em função de suas sexualidades). A misoginia atinge inclusive pessoas que não são mulheres, mas que manifestem comportamentos que a sociedade julga como femininos, considerando essas pessoas inferiores. De maneira mais  discreta, a misoginia se expressa na cultura e até mesmo na linguagem reduzindo a figura da mulher ou ocultando. Exemplo: referir-se à espécie humana como "o homem", expressões como "você não é macho o suficiente para", ou usar como ofensa termos como "mulherzinha". A misoginia é uma das formas pelas quais o patriarcado (cultura de superioridade masculina) faz a manutenção de poder do gênero masculino sobre o gênero feminino.

Misandria: Pelo significado cru da palavra, misandria é o oposto de misoginia, ou seja, o ódio ou aversão ao gênero masculino, bem como comportamentos associados a ele. No entanto, dentro de uma cultura machista, não se pode considerar como diametralmente opostos, por um deles falar de um gênero em situação de poder (masculino) odiando/repelindo outro, enquanto o segundo fala do gênero em situação de opressão (feminino) odiando/repelindo o outro. A misandria pode ser entendida, em algumas situações, como uma resposta à misoginia. Em outros casos, pode ser  usada também como tática por grupos ativistas feministas, como forma de ataque ao patriarcado e afirmação do poder das mulheres. A misandria não é blindada a críticas, nem a questionamentos, mas não deve ser entendida como "misoginia ao contrário" num cenário onde esses dois gêneros (masculino e feminino) não estão em situação de poder equivalente. É preciso ter cuidado ao realizar essas análises.

Falsa Simetria


A falsa simetria, como o próprio nome dá a entender, é quando se "força" equivalência entre duas situações que não podem ser comparadas. Por exemplo, uma pessoa pode ser discriminada por ser branca demais, mas isso não é a mesma coisa que racismo, porque racismo é uma opressão estrutural, ou seja, pra ser equivalente todas as pessoas brancas teriam que ganhar menos, as pessoas teriam medo delas na rua, elas seriam paradas com frequência pela polícia, entre diversos outros fatores a que negros estão submetidos em nossa sociedade. Seguem alguns exemplos de falsa simetria:
  • Racismo Reverso: Não existe "racismo reverso". A discriminação racial ou étnica pode acontecer com qualquer pessoa, de qualquer cor ou origem cultural. Mas discriminação e opressão são coisas diferentes, e racismo é uma opressão, ou seja, é estrutural. Pra que exista racismo reverso,  precisaríamos voltar no tempo, a África colonizaria a Europa, exploraria o trabalho de pessoas brancas por séculos, e isso resultaria numa cultura de opressão contra brancos. Somente nesse caso pessoas brancas sofreriam racismo aqui.
  • Heterofobia: É usada como forma de comparar a resposta de pessoas LGBT às opressões sofridas numa sociedade heteronormativa e cisnormativa. Também não é uma comparação que tem sentido, já que heterossexuais não são marginalizados por sua condição sexual, não são rejeitados no mercado de trabalho, não têm direitos constitucionais negados por serem heterossexuais, etc. É preciso destacar a diferença entre a hostilidade contra pessoas heterossexuais por parte de LGBTs (o que pode acontecer) e a opressão estrutural sofrida pela comunidade LGBT.
  • Feminazi e Femismo: Frequentemente se usa esses termos para desqualificar feministas. O termo "feminazi" é uma contradição semântica, pois tenta comparar um movimento por igualdade de direitos com um regime fascista que foi patriarcal e misógino. Podem existir feministas autoritárias,  intransigentes, mas nenhum desses casos vai justificar o termo "feminazi", pois o nazismo era um regime que oprimia fortemente as mulheres. Também se diz com frequência "isso não é feminismo, é femismo" tentando estabelecer uma diferença entre a luta por igualdade e um suposto movimento de superioridade feminina. Do mesmo jeito que "racismo  reverso" ou "heterofobia", para haver "femismo" e ele ser comparável com machismo, que é uma opressão estrutural, precisaríamos voltar no tempo, estabelecer uma cultura matriarcal que explorasse o trabalho  masculino por milênios, de modo que aos homens estivesse reservada apenas parte do mercado de trabalho, que eles ganhassem menos que mulheres, que fossem vítima de violência específica por seu gênero, além de uma infinidade de abusos de ordem sexual. É uma comparação que não  tem equivalência, por isso é falsa simetria.
  • Cristofobia: No Brasil não faz sentido falar em perseguição religiosa estrutural a cristãos. Vivemos em um país que isenta as igrejas cristãs de impostos, que privilegia a estrutura familiar cristã em relação a outras (vítimas de diversos tipos de discriminação por não serem supostamente  "tradicionais"), que concede privilégios administrativos, políticos e econômicos para líderes de igrejas cristãs (como passaportes diplomáticos), que possui uma bancada evangélica, uma das mais fortes politicamente hoje no Congresso, tem canais da rede aberta de televisão a seu dispor, além de realizar censuras sobre o sistema público de educação. É preciso também fazer uma separação entre a fé cristã e a instituição cristã. Mesmo os militantes pela liberdade de crença farão  apontamentos sobre esses privilégios das igrejas cristãs, pois eles buscam um estado laico, ou seja, sem interferência de uma religião específica, para que possa existir igualdade entre pessoas de fé diferente. Há outros países, de diferentes culturas, onde cristãos sofrem perseguição. Nesses locais, falar em cristofobia pode fazer sentido. No Brasil, não.
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