Conheça nosso Grupo De Estudos!



[8/8] Linguagem neutra ou inclusiva

Este artigo é parte da série "Sexualidade, Opressão e Violência", dividida em 8 partes. Para ter acesso aos outros conteúdos, visite a publicação índice clicando aqui. O Projeto Vision é uma iniciativa conjunta de Lacking Faces e Anonymous FUEL


Linguagem Neutra ou Inclusiva


A linguagem neutra é uma proposta de fazer com que um idioma escrito e falado se torne inclusivo às diferentes manifestações de gênero na sociedade. Elas se aplicam diretamente a pessoas, mas não a objetos e animais, que ainda poderiam usar a linguagem padrão ao serem referidos (como "a cadeira" ou "o cachorro"). Alguns idiomas possuem uma estrutura que facilita essa forma de comunicação (no inglês, por exemplo, os adjetivos não possuem uma versão para o masculino e outra no feminino como na maioria dos casos em português). Embora em nosso país seja uma iniciativa informal e não oficial, outros países já caminharam bastante nesse sentido. A Suécia recentemente incluiu um pronome de gênero neutro em seus dicionários. 

Esse tipo de processo facilita a inclusão de pessoas transgênero ou não binárias na sociedade, além de buscar reverter um efeito sexista da língua. A linguagem é um dos componentes mais fundamentais de uma sociedade, portanto, precisa ser constantemente alvo da crítica social e estar passível de transformação de modo que seja mais efetiva e contemple totalmente a população.

Uma das questões com a língua portuguesa é que nos casos de uso plural o masculino sobrepõe-se ao feminino. Numa sala com meninas e meninos, diz-se "os alunos", por exemplo. Embora pareça um detalhe pouco importante para a maioria das pessoas (sobretudo as que não se sentem afetadas por ele), essa é uma discussão que tem ocorrido por todo o mundo e não parte apenas de grupos ativistas, mas de diversos pesquisadores das áreas sociais e linguísticas.

Existem atualmente muitas propostas de adaptação da linguagem escrita e oral para a língua portuguesa de modo a torná-la mais inclusiva, mas elas também possuem limitações e ainda são assunto para debates. Várias dessas tentativas já ocorrem experimentalmente, principalmente na internet ou em textos produzidos por grupos ativistas que dividem essa preocupação. Mas a falta de um padrão comum, somada à falta de informação, também tem feito com que essa forma da língua também seja usada de forma jocosa ou irônica em algumas situações. O Brasil ainda não possui um pronome neutro e nenhuma lei ou orientação para uso de linguagem inclusiva, mas isso não significa que o assunto deva ser ignorado, sobretudo porque envolve a inclusão de pessoas a uma cidadania plena.

Substituição ou Adição de Pronomes: As propostas de substituição de pronomes em geral visam a troca de pronomes de gênero [ele(s) / ela(s)] por um pronome comum (ex: ile, elu, ilu, entre outros) ou, como no caso da Suécia, adição de um terceiro pronome que poderá ser usado para ambos os casos. A adição de um pronome é uma proposta menos radical, mas de mais fácil inserção dentro de um sistema de linguagem. Outra complicação desta proposta é que ela envolveria diversos outros pronomes (meu/minha, vossa/vosso, seu/sua, etc) que teriam de ser abrigados dentro da norma escolhida.

Substituição ou Remoção da vogal de gênero em adjetivos: Também há muitas propostas que envolvem a troca do "o" e do "a" no fim das palavras de modo que elas sirvam para qualquer gênero. Durante muito tempo se difundiu o uso do "x" e do "@", como por exemplo em "todxs são bonitxs" ou "tod@s são bonit@s", mas essas duas grafias além de não se aplicarem à linguagem oral também dificultam a leitura de textos por programas que são usados para a inclusão de deficientes visuais. A forma mais aceita e menos problemática atualmente é a substituição por "e", como em "todes são bonites". Também existe a proposta de simplesmente remover a vogal de gênero das palavras, como em "tods são bonits", mas esta alternativa também gera dificuldade de oralização.

Limitação dos recursos formais: Atualmente já existe uma forma de escrita formal aceita para esse tipo de situações, com o uso do parênteses para evitar a repetição. Por exemplo, no lugar de "todos e todas", podemos usar "todos(as)". Contudo, essa forma de escrita limita-se à distinção de dois gêneros (masculino ou feminino), além de também dificultar a oralização dos conteúdos e sua leitura por programas destinados a deficientes visuais.

Alternativas que não conflitam com o português formal: Não é preciso necessariamente alterar a língua para evitar o uso de gênero em situações em que ele não se faça necessário. Há muitos casos em que a simples troca de palavras ou da forma de escrita é capaz, por si só, de resolver o problema. O uso de termos neutros como "alguém" e "pessoa" já podem retirar o uso de gênero de uma frase simples. Por exemplo, ao se direcionar a um público específico num texto, no lugar de dizer "todos vocês que estão lendo", pode ser usado "todas as pessoas que estão lendo" ou "quem quer que esteja lendo". A troca do sujeito ativo numa sentença e ocultação de pronomes e artigos também pode causar esse efeito. Por exemplo, no lugar de "A Daniela foi levada daqui" pode ser usado "levaram Daniela daqui". Substituir adjetivos por verbos também é uma opção, por exemplo, no lugar de "sua fala me deixou constrangida" é possível usar "sua fala me constrangeu". Independente da alternativa usada pela pessoa que se comunica, seja de forma escrita ou oral, é importante termos sempre essa preocupação. A linguagem não pode ser encarada por um viés conservador, pois sua função é promover que pessoas se comuniquem e se entendam. Se a linguagem se torna um impedimento a esse processo, ela precisa ser transformada ou adaptada.