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A insensibilidade de profissionais da saúde com pacientes que tentam suicídio



Nota 1: este texto não tem qualquer intenção de rotular toda a categoria dos profissionais da saúde, sejam eles socorristas, enfermeiros(as) ou médicos(as) como reprodutores das condutas expostas abaixo;
Nota 2: este texto contou, no transcorrer de sua elaboração, com a colaboração de indivíduos que foram diagnosticados com algum transtorno psiquiátrico e que, em algum momento (ou momentos), chegaram ao limite e atentaram contra a própria vida, não obtendo êxito; assim, existem aqui perspectivas destas pessoas e de suas análises sobre indivíduos e situações diretamente ligadas à questão desenvolvida aqui;
Nota 3: trataremos aqui da depressão, mas a reflexão deste texto se aplica  a quaisquer outros transtornos como o Transtorno de Personalidade Borderline, Transtorno de Humor Bipolar, Transtorno de Ansiedade, dentre outros.

Não é incomum encontrar quem propague o discurso de que depressão é "frescura" e que, por isso, não é digna de se levar a sério.
Há também aqueles que afirmam que tal doença se manifesta por "falta do que fazer", tentando minimizar suas causas e efeitos.
Frente à ignorância diante de uma questão grave como esta, as desculpas para se esquivar ou empurrar o problema para debaixo do tapete são inúmeras.
Contudo, já passou - e muito - da hora de conferirmos a este tema a devida atenção e importância.
Referenciamos, primeiramente, algumas informações básicas sobre esta doença que vitima milhares de pessoas todos os anos. Em seguida, abordaremos a questão do atendimento à quem atenta contra a própria vida.



A depressão é uma doença incapacitante, ou seja, ela torna o doente incapaz de realizar suas atividades cotidianas tal como ele ou ela fazia costumeiramente. Atividades simples como tomar um banho, cozinhar, passear com o cachorro, ir ao supermercado, ir à academia, sair com os amigos, etc, acabam por parecer impossíveis de serem concretizadas.
Objetivos profissionais ou pessoais, então, menos ainda. Estes se desmancham antes mesmo da primeira tentativa.
É comum que este quadro patológico venha acompanhado de outro transtorno que potencializa os sintomas da depressão: a ansiedade.
A situação fica mais complicada se considerarmos aqui que uma pessoa que sofre de depressão pode não querer sair da cama, passando o tempo todo isolado em seu quarto, ou pode ter uma grande dificuldade para dormir, quer seja dia ou noite.
Com o cansaço físico e a confusão mental resultante deste "estado de alerta por 24h", o indivíduo pode, gradualmente, perder a capacidade de discernir o que é real do que pode ser uma alucinação.
Se somarmos isso com a ansiedade e o estado de extremo alerta que ela provoca, a vida do doente se transforma literalmente em um inferno.
Talvez muitos de vocês, leitores e leitoras, não saibam ou entendam o que é uma crise de ansiedade, não tendo ideia do que a pessoa sente. Como qualquer outra doença, os sintomas podem variar de pessoa para pessoa, mas podemos pontuar aqui que:

- a ansiedade consiste em um estado de desespero/pânico que pode se manifestar sem qualquer motivo aparente (pode ocorrer em um momento de susto ou perigo, assim como pode ocorrer durante o café da manhã ou enquanto se assiste a um filme com o namorado ou namorada);
- contribui para a piora do quadro o fato de o doente não saber quando a crise de ansiedade irá acabar (isso também depende de alguns fatores; por exemplo, uma pessoa que sofre de ansiedade há um tempo considerável e segue com acompanhamento médico, acaba se conhecendo um pouco mais e pode ser que consiga manter o controle sobre si, podendo até acabar com o estado de ansiedade com exercícios de respiração; como dissemos, isso depende muito de pessoa para pessoa e, como sempre, é indispensável que se procure orientação médica);

- há uma aceleração dos batimentos cardíacos
- sudorese
- diarréia
- dores na região toráxica
- dificuldade para respirar

Como vimos, as doenças psicológicas podem ser psicossomáticas, ou seja, podem vir a se manifestar no físico, no funcionamento do corpo do doente. A ansiedade acaba sendo um péssimo agravante, pois traz um elemento
extremamente perigoso para esse cenário caótico que envolve o doente e seus familiares: o desespero. A sensação durante uma crise de ansiedade é de profundo desespero, a impressão de que algo muito ruim acontecerá nos próximos cinco minutos, e não há nada (ou quase nada) que acabe ou amenize o torpor abissal aqui descrito.
Reforçamos: não é frescura. É real e muito doloroso. Da mesma forma que não se fala para uma pessoa que tem câncer para que se levante da cama "porque aquilo é coisa da sua cabeça", não se deve proferir tais palavras a uma pessoa que sofre de depressão.
É uma doença grave que possui alto potencial de fazer com que o doente seja a causa da própria morte. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, ocorre um suicídio a cada 40 segundos
(https://nacoesunidas.org/oms-suicidio-e-responsavel-por-uma-morte-a-cada-40-segundos-no-mundo/).



SOBRE O ATENDIMENTO A QUEM TENTA SUICÍDIO

Infelizmente é muito comum os relatos de maus tratos, seja nas ambulâncias, postos de saúde ou hospitais a pessoas que atentaram contra a própria vida. Considere você, leitor (a), que todo tipo de gente chega a esse estágio avançado da doença: pais e mães, adolescentes, idosos, pessoas que se divorciaram, que são casados (as), solteiros (as), ateus, crentes em deus ou deuses, pessoas com emprego fixo ou desempregados (as). Enfim, os perfis são ínfimos, não havendo, portanto, propriedade alguma de se afirmar que a causa da prática do suicídio seja a crença ou descrença de deuses, prática ou ausência de religiões na vida do doente.
Todo sofrimento é igualmente horrível. Por mais responsabilidades que um adulto possua socialmente (por exemplo, uma família para cuidar), não significa que o sofrimento deste seja maior que o de um jovem solteiro.
É preciso parar com estas tentativas de dividir o sofrimento em escala gradual baseando-se em achismos infundados como este.

Contudo, no caso de jovens que sobreviveram após tentarem o suicídio, os relatos não diferem tanto desses elementos sombrios

NAS AMBULÂNCIAS

Em muitos casos os familiares ou amigos acionam o serviço de atendimento móvel de urgência ao invés de conduzir o doente ao hospital mais próximo.
Entretanto, o período que compreende os primeiros atendimentos dados pelos socorristas até o hospital pode se transformar em um obstáculo muito maior do que aqueles que o doente viera tentando enfrentar até então.
As frases que muitos socorristas falam enquanto o paciente está desacordado na maca podem ser das mais desdenhosas:

- "tanta gente querendo viver, e tem esse tipo querendo morrer.. lamentável"
- "tem gente que tá doente de verdade e precisa de uma cama, e agora essa (e) aqui vai passar na frente.. isso é Brasil"
- "por que não se enforcou? nos pouparia tempo, poderíamos estar atendendo quem realmente precisa"
- "tentou se matar porque o namorado terminou a relação.. isso é falta de vergonha na cara, falta do que fazer"

NO PRONTO-SOCORRO/HOSPITAL

Durante os primeiros cuidados médicos, tais impropérios continuam nos atos de muitos (as) médicos (as) e enfermeiros (as). Se o paciente possui uma fratura (no caso de ter se jogado de algum lugar), os que o atendem aplicam força em demasiado sobre o ferimento, muitas vezes sob frases sarcásticas de "não queria morrer? agora aguenta!". Ora, como podemos virar nosso olhar para outra direção e ignorar todo esse quadro de tortura?
No caso daqueles que ingerem veneno ou overdose de medicamentos e chegam desacordados aos centros de atendimento, os destratos não diferem muito. Desacordados, muitos permanecem ouvindo os (repulsivos) diálogos em curso na sala médica.
Se a situação exige uma lavagem estomacal, embora seja necessário uma considerável rapidez no processo médico, a própria ação de colocar o tubo via nasal até o estômago é feito, muitas vezes, "de qualquer jeito", independente se aquilo irá, de algum modo, ferir o doente.
Muitos dos diálogos que ocorrem durante este processo não diferem dos supracitados quando falamos dos socorristas nas ambulâncias.
O paciente, a maior vítima, está desacordado (a), mas ouvindo e sentindo como está sendo tratado com desdém por toda a equipe médica - ou por parte dela.
Durante o processo de recuperação, as condenações de familiares e amigos não cessam. Ao contrário, se tornam mais fortes, frequentes e agressivas.
Frente a isso tudo, algumas perguntas cabem: como superar a doença? Como o doente pode superar sua família que lhe direciona julgamentos, falando da sua "fraqueza" justo no momento em que tentou ser o mais forte possível o tempo todo?

É preciso que depressão e suicídio deixe de ser um tabu e passe a ser um assunto debatido com a devida seriedade e devidas considerações.
É preciso mais empatia, abrindo o coração e a mente para esta questão. Se não pode ajudar, não atrapalhe. Sugira que a pessoa procure ajuda profissional, e jamais tente reduzir o sofrimento que ele (a) manifesta ter.
O diálogo, aberto e franco, pode mudar significativamente a maneira como muitos profissionais da saúde venham a atender estas pessoas.
Não se trata de pessoas egoístas, mas de indivíduos que estão em um estado se sofrimento agudo permanente, ininterrupto, levados pela ansiedade a um ato de desespero.
Imagine, pois, quanto um pai ou mãe não deveria estar sofrendo ao atentar contra a própria vida, abdicando de seguir acompanhando o crescimento dos filhos.
Imaginem o quão desesperançado não estava aquele jovem que atentou contra a própria vida, desistindo do noivado (que tanto planejou) e da faculdade, onde era aluno brilhante, ou então a adolescente, vítima de bullying na escola, que desistiu de viver por conta das agressões diárias. As ofensas, os tapas e chutes constantes encerraram-lhe a vontade de viver.
Quem tenta suicídio é paciente como qualquer outro e merece dignidade durante todo o seu atendimento.